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Soluços
dos Violinos de Outono...
Episódios
e Curiosidades da Segunda Guerra Mundial
1. Guernica: o show-room
da barbárie nazista
A Segunda Guerra Mundial teve início, oficialmente, em setembro
de 1939. Segundo a história oficial, portanto, 1939 considera-se
o ano que marca o início de uma tragédia coletiva: milhões
de histórias repletas de selvageria e sofrimento que, nos seis anos
seguintes, seriam protagonizadas por pessoas de praticamente todas as nacionalidades.
Entretanto, este nosso caminhar por essas lamentáveis abordagens
não poderia iniciar-se sem, contudo, antes, mencionarmos uma das
primeiras nacionalidades exógenas vítimas da crueldade nazista:
o
povo espanhol.
A Guerra Civil Espanhola, que assolou o país de 1936 a 1939, teve
seu destino selado pela participação dos exércitos
de Hitler, que testou na população civil seu moderno poderio
bélico. Apoiando o Generalíssimo Franco, que se tornou ditador
por décadas, os alemães bombardearam com fria e cruel eficiência
o povo de Espanha, mostrando, de antemão, para o mundo, sua destrutiva
capacidade.
Dentre as incontáveis atrocidades cometidas, uma cidade espanhola
tornar-se-ia uma vítima-símbolo do poder de destruição
nazista: Guernica.
A agonia dessa cidade por certo será eternamente lembrada, através
de muitas formas de expressão, tais como a magistral arte do imortal
pintor espanhol Pablo Picasso que conseguiu captar, num impressionante
quadro, todo o horror do sofrimento vivido por sua gente, naquele fatídico
26 de abril de 1937.
Toda a extensão da tragédia pode ser constatada pela reportagem
do "The Times", de 28 de abril de 1937:
"Guernica, a mais antiga cidade dos bascos, centro de suas tradições
culturais, foi completamente destruída ontem à tarde por
um reide aéreo dos revoltosos. O bombardeio dessa cidade aberta,
muito atrás das linhas de combate, durou três horas e quinze
minutos, durante as quais uma poderosa esquadra aérea alemã,
composta de bombardeiros Junker e Heinkel, e caças Heinkel, não
parava de despejar sobre a cidade bombas de 1000 libras e, calcula-se,
mais de 3000 projéteis incendiários de 2 libras, de lumínio.
Ao mesmo tempo, os caçcas mergulhavam sobre a cidade para metralhar
a parte da população civil refugiada nos campos(...).
Às 2 horas da madrugada de hoje, quando visitei a cidade, toda ela
era uma visão terrível, queimando de ponta a ponta. A cerca
de 16 quilômetros da cidade, já se podia ver o reflexo das
chamas nas nuvens de fumaça sobre as montanhas. Casas continuaram
a desmoronar durante toda a noite, até que as ruas se tornaram grandes
amontoados de destroços vermelhos e impenetráveis. Muitos
dos sobreviventes civis tomaram o longo caminho de Guernica a Bilbao em
antigas carroças de rodas de madeira, puxadas a bois. Carretas sobrecarregadas
de objetos domésticos salvos da conflagração entupiram
as estradas durante a noite inteira. Outros sobreviventes foram evacuados
em caminhões do governo, mas muitos se viram obrigados a permanecer
na cidade em chamas, procurando parentes e crianças desaparecidos,
enquanto unidades do corpo de bombeiros e a polícia militarizada
basca, sob a direção pessoal do ministro do Interior, Señor
Monzon, prosseguiram as operações de resgate até o
amanhecer.
Na sua forma de execução, na extensão da destruição
conseguida e, na seleção de seu objetivo, o reide de Guernica
não tem paralelos na história das guerras. A cidade não
era objetivo militar. Uma fábrica de material bélico, ao
lado da cidade, permaneceu intacta, assim como acampamentos militares situados
a pouca distância da cidade. Guernica estava muito atrás das
linhas de combate. O objetivo do bombardeio foi a desmoralização
da população civil e a destruição do berço
da raça basca. Todos os fatos confirmam essa afirmação,
desde o dia escolhido para o feito.
Segunda-feira era o dia habitual do mercado em Guernica. às 4h 30
da tarde, quando o mercado já estava repleto e os camponeses ainda
chegavam, o sino da igreja deu o alarma anunciando a proximidade de aviões;
a população procurou se esconder nos porões e em abrigos
antiaéreos preparados após o bombardeio da população
civil de Durango, em 31 de março, que inaugurara a ofensiva do General
Mola no norte.
Cinco minutos depois, um únicos bombardeiro alemão apareceu,
fez um círculo rasante sobre a cidade, e deixou cair seis bombas
pesadas, tendo como alvo aparente a estação. As bombas, e
mais uma cortina de granadas, atingiram um antigo instituto, casas e ruas
à sua volta. Então o avião foi embora. Depois de mais
de 5 minutos, apareceu um segundo bombardeiro, que jogou o mesmo número
de bombas no centro da cidade. Cerca de 15 minutos depois, três Junker
chegaram para completar o trabalho de destruição, e daí
por diante o bombardeio se intensificou e tornou-se contínuo, cessando
somente com a aproximação da noite, às 19h45. Toda
a cidade de 7000 habitantes e mais 3000 refugiados foi vagarosa e sistematicamente
feita em pedaços. Num raio de 8 quilômetros, um detalhe da
técnica dos reides for bombardear " caserios" ou fazendas isoladas.
De noite, elas queimavam como velinhas nas montanhas. Todas as vilas vizinhas
foram bombardeadas com a mesma intensidade e, em Mugica - pequeno grupo
de casas na entrada de Guernica -, a população foi metralhada
durante 15 minutos.
As táticas dos bombardeiros foram as seguintes: (....) de início,
granadas de mão e bombas pesadas para fazer a população
debandar em pânico; depois, descargas de metralhadoras para obrigar
as pessoas a se deitar; finalmente, pesadas bombas incendiárias
para arruinar as casas e fazê-las cair em chamas sobre suas vítimas."
O Correspondente do "Echo de Paris", também deu seu testemunho,
em 30 de abril de 1937:
"Informa uma fonte diplomática que o Alto Comando da Força
Aérea alemã fez arranjos para que seus pilotos mais experientes
servissem na Espanha, sob o comando do General Francisco Franco, líder
das forças rebeldes. Assim a Alemanha está utilizando a Guerra
Civil espanhola como uma escola de treinamento para seus aviadores militares.
Informações obtidas de fontes seguras daqui indicam que o
General Hermann Goering, ministro da Aviação alemã,
tomou a iniciativa de ordenar o bombardeio e a destruição
de Guernica. Pretendia dar uma demonstração prática
do quanto os combates aéreos podem realizar, defendendo algumas
de suas concepções trágicas e estratégicas,
postas em dúvida, algumas vezes, pelos generais do Exército
alemão."
Para melhor ilustrar o sentimento que grassou naquelas almas e corações
feridos, convém citar a nota oficial da Prefeitura de Guernica,
dirigindo-se ao povo espanhol, em 4 de maio de 1939:
"Em pé, diante desde microfone, quero contar o que os meus olhos
viram no lugar do que já foi Guernica, e tomo Deus como testemunha:
Envergonhados pelo monstruoso crime que cometeram, os rebeldes apelam para
a falsidade para camuflar, para negar a mais vil das proezas da História,
a total e absoluta destruição da cidade de Guernica.
Aquele dia fatal, 26 de abril, era dia de mercado e a cidade estava cheia
de gente. Em Guernica havia milhares de camponeses de toda a vizinhança,
numa atmosfera de camaradagem basca, e ninguém suspeitava de que
uma tragédia se aproximava.
Pouco depois das quatro da tarde, aviões jogaram nove bombas no
centro da cidade. Procurávamos os feridos, quando mais aviões
surgiram, jogando todo tipo de bombas, incendiárias e explosivas.
As feras que pilotavam tais aviões, logo que avistavam nas ruas
ou fora da cidade uma figura humana, focalizavam nela suas metralhadoras,
semeando terror e morte, entre mulheres, crianças e velhos. Tal
foi a tragédia de Guernica, cuja verdade, eu, prefeito da cidade,
afirmo diante do mundo inteiro.
A Milícia estacionada em Guernica, naquele dia, era exatamente a
mesma que havia confraternizado todos esses meses com o povo de Guernica,
ganhando sua afeição. Foi a primeira a prestar auxílio
naqueles momentos terríveis. Não foi nossa milícia
que ateou fogo a Guernica, e se o juramento de um alcaide cristão
e basco tem algum valor, juro diante de Deus e da História que aviões
alemães bombardearam cruelmente nossa cidade até riscá-la
do mapa.”
Guernica foi ferida, mas não morrerá. Da árvore brotarão
novas folhas verdes em toda primavera; seus filhos a ela retornarão;
suas casas serão reconstruídas, suas igrejas escutarão
novamente seus hinos e preces...
Guernica, o símbolo de nossas liberdades nacionais, e o símbolo
da ferocidade do fascismo internacional, não pode morrer."
* * *
Fonte:
História do Século 20, volume 4 – Abril Cultural
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