Soluços dos Violinos de Outono...


Legiões das trevas: a Gestapo e as tropas SS

           Hordas sinistras... Levas demoníacas... Esquadrões satânicos...
           Qualquer que seja o epíteto, por mais contundente que se expresse o superlativo, sempre permanecerá aquém da realidade o significado atribuído às famigeradas tropas SS, as guardiãs de Hitler, cruéis anjos da guerra e da ideologia nazista, notórios exércitos do mal. 
            Oriundas das antigas SA - Sturn Abeitlung , as SS ou Schutzstaffal , constituíam verdadeiras máquinas mortíferas, a serviço da tirania e da repressão. Essas hordas representavam um real espelho do caráter de seu líder, o Reichsführer Himmler, um dos mais ferrenhos asseclas do tirano alemão, um alto-comandante que se orgulhava de possuir em casa móveis e objetos de adorno construídos com ossos humanos - tais como um abat-jour tecido com pele humana -, pequenos exemplos dos produtos finais originários das centenas de campos da morte espalhados principalmente pela Alemanha e Polônia - Awschwitz, Treblinka, Sobibor... onde cabelos eram matéria-prima para fabricação de pincéis, ossos transformavam-se em pentes e em outros objetos, gordura humana, em sabão, e o ouro das obturações enriquecia ainda mais os cofres dos saqueadores nazistas. Historicamente Himmler é considerado por muitos o maior criminoso de todos os tempos... ranking onde o Führer, naturalmente, pousa como figura fora-de-série, embora haja quem julgue Himmler pior que o próprio Hitler.
            Recrutados a princípio dentre jovens alemães no pleno vigor físico, como protótipos da elite de uma presumida "raça superior", os elementos das SS recebiam um treinamento rigoroso, terrivelmente eficaz, que os transformava em uma insólita espécie de autômatos, sempre prontos a manifestar sua fidelidade absoluta a Hitler, a defender sem piedade os valores da ideologia nazista e a obedecer cegamente às ordens do Führer. Posteriormente, com o desenvolvimento da guerra, formaram-se divisões inteiras compostas por voluntários estrangeiros, de várias nacionalidades, inclusive franceses, estes, em geral, de ascendência alemã, oriundos da região da Alsácia-Lorena. Himmler, no entanto, sempre deixou claro que as divisões estrangeiras deveriam subordinar seus ideais nacionais a um "ideal racial e histórico superior”  –  o do Reich alemão.
            Exibindo impecáveis e sinistros uniformes negros, ostentando como símbolo duas letras rúnicas "S " – estilizadas na forma de dois relâmpagos –, as SS foram sendo reestruturadas no decorrer da guerra, distribuindo-se em várias ramificações, conforme o objetivo do serviço prestado: o Serviço de Inteligência ou Sicherheitsdient, que absorveu o Abwher - Serviço de Inteligência das Forças Armadas; a Polícia Regular; a Polícia de Segurança, composta pela Polícia Criminal Estatal – Kripo –, e pela Polícia Secreta - Geheimestaatspolizei ou Gestapo, esta última transformada em sinônimo de terror. 
            A Gestapo constituiu, de fato, um capítulo à parte no circo de horrores nazista. Representou o palco onde as artes da tortura, da injustiça, da impunidade e da criminalidade expressaram-se de maneira ímpar, envoltas em um perene halo de crueldade e sadismo. 
            Quando Himmler assumiu o comando, sua primeira atitude foi armar um estratagema para derrubar um de seus pilares – o também diabólico Roehm –, que foi intensamente espionado, inclusive no próprio quarto de dormir, tendo sua homossexualidade exposta e enfurecendo Hitler. 
             Em junho de 1934, Roehm, líder das SA na época, e co-fundador do partido nazista, foi assassinado juntamente com outros cerca de 1350 membros e assessores. Esse massacre ficou conhecido como A Noite dos Longos Punhais.
              Livre de Roehm, Himmler ficou à vontade para comandar suas hordas sinistras. Em 1936, a Gestapo foi autorizada por decreto a prender, torturar e matar pessoas sem julgamento nem provas, dessa forma aniquilando a oposição em poucos meses. Esse decreto concedia poderes à Gestapo para submeter a “interrogatórios especiais” os prisioneiros comunistas, marxistas, estudiosos da Bíblia, sabotadores, terroristas, membros da Resistência, agentes de ligação, marginais, trabalhadores insubordinados, poloneses, russos e vagabundos. Curiosamente, os judeus não foram citados na listagem, mas seu destino já se traçara em cada gesto, em cada palavra de Hitler, desde que escrevera a odiosa obra “Mein Kampf”.
               Por essa época já estavam sendo construídos os primeiros campos de concentração, figurando como primeiro deles o de Dachau, onde foram servir membros de um novo e não menos sinistro grupamento: as SS caveiras ou divisão Totenkopf.  Destinadas às unidades em atividade nos campos de concentração, seu distintivo consistia na imagem de uma caveira, símbolo adequado às maquiavélicas ações de negociar, torturar, e exterminar seres humanos. As SS caveiras faziam parte das chamadas Waffen-SS, ou seja, as "SS armadas" ou "SS de combate", encarregadas de manter o domínio dos territórios ocupados, a ferro e fogo. Nos campos de batalha, as Waffen-SS lutavam de forma obstinada, cruel e fatal.
                A funesta equipe da Gestapo de Himmler completar-se-ia então com a adesão de dois personagens à altura de sua patifaria: Reinhard Heidrych, nomeado como segundo homem no comando, e Heinrich Müller, designado chefe operacional.
                Em julho de 1943, já com a derrota nazista prenunciando-se no horizonte, uma ordem assinada por Martin Bormann, secretário de Hitler, determinava à Gestapo o extermínio imediato de todos os judeus. Foi encarregado dessa desastrosa missão Adolf Eichmann, chefe da seção especial da polícia secreta de Himmler, incumbindo-se de promover a solução final do problema judaico.
                 Os pretensos “deuses da guerra”, mesmo pressentindo a futura derrota, ainda vaticinavam sobre a sorte de populações inteiras, imbuídos da funesta idéia de que “cairemos e arrastaremos o mundo conosco”. 

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                  No sul da França, através dos constantes contatos com grupos de Resistentes, Renata tomava conhecimento das atrocidades cotidianas das SS contra a população civil, motivadas pelas mais fúteis e torpes razões, desde represálias a atentados cometidos pela Resistência até manifestações de pura e simples selvageria. Então Renata compreendeu o porquê da orientação de se levar consigo uma ampola de cianureto. A principal característica da personalidade dos membros das SS era a quase total ausência de essência humana, uma vez que dentre os poucos sentimentos manifestos por eles ressaltavam-se o ódio ao próximo e o extremo desprezo à vida. Cair em suas mãos significava morte certa, insuportável sofrimento ou ambas as hipóteses.
                 O cenário da guerra no front oriental – na Rússia, nos Bálcãs –, há muito tempo já se constituía no palco de insanidades praticadas pelas hordas de SS, que massacravam indiscriminadamente soldados e população, sem distinção de sexo ou idade.
                   Também para a sofrida nação francesa, as forças SS reservavam um pavoroso destino: no primeiro semestre de 1944, o sudoeste da França foi varrido por uma onda de terror promovida pela divisão Das Reich, sob o comando do Oberführer Heinz Lammerding.
                   Presumindo que a invasão da Europa pelos Aliados aconteceria através da França, o alto comando alemão cuidou de enviar a divisão Das Reich para assegurar a operacionalização das linhas de comunicação de norte a sul do país. Tal decisão procedia, inclusive, do fato de se perceber, na época, uma intensificação nos atos de sabotagens e emboscadas promovidas pela Resistência, numa clara intenção de paralisar ou dificultar os deslocamentos das tropas alemãs.
                   Instalando o Estado-Maior da divisão em Montauban, um local estratégico, a meio caminho da costa atlântica e da costa mediterrânea francesa, Lammerding poderia desencadear operações rapidamente num vasto raio de ação. Na região, vários maquis mantinham intensa atividade de Resistência. As SS decretaram guerra total contra toda a população, com o objetivo de intimidar a colaboração aos Resistentes e aniquilar esses grupos.
                    Em 2 de maio de 1944, as primeiras ações de terror da divisão Das Reich transformaram o vilarejo de Montpezat-de-Quercy, no sudoeste francês, em um inferno. A pretexto de localizar um suposto depósito de armas no local, assassinatos sumários de habitantes foram praticados, casas incendiadas e vários homens deportados para campos de concentração. A cena de horror culminou com um morador idoso e sua neta, uma menina de dois anos, sendo atirados vivos sobre um braseiro, morrendo calcinados em conseqüência desse ato de barbárie. 
                     Essas primeiras ações inauguraram na região a triste, crescente e metódica estratégia de se intimidar e abordar as populações civis, através da prática sistemática de saques, torturas, incêndios, enforcamentos, fuzilamentos e demais atos que a insana criatividade dos SS ensejasse no momento fatídico. No auge do terror, para cada alemão ferido três pessoas eram executadas – enforcadas, degoladas, queimadas vivas ou fuziladas –, e para cada alemão morto, 10 pessoas sofriam o mesmo fim. O rastro deixado por essa satânica legião significou o holocausto de habitantes de várias localidades, cenários das mais incríveis atrocidades, no eixo Cahors-Bretenoux. 

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                      Mas, dentre todas as populações agredidas, é difícil que se encontrem paralelos para as monstruosidades que ainda estariam reservadas aos moradores de Argenton, Tulle e Oradour-sur-Glane, na primavera francesa de 1944...

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                       E dessa forma caminhavam, espalhando sua marca de terror, realizando "patrióticas" proezas, os esquadrões SS, o orgulho de um Führer insano, a elite da superioridade racial do "grande" Reich alemão, vergonha da espécie humana...


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